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Parkinson e Tremor

Primeiros sinais da doença de Parkinson além do tremor

Lentidão, mudança na letra, perda de olfato, alteração do sono REM e mudança na marcha: sinais iniciais que costumam vir antes do tremor.

6 min de leitura Revisado por Dr. Lucas Michielon — CRM-SP 175533 · RQE 87441
Marcha com passos curtos observada no ambiente doméstico

O tremor é o sinal mais famoso, não o primeiro

A imagem cultural do Parkinson é a mão que treme. Ela existe, é real e é o motivo pelo qual boa parte dos pacientes procura avaliação. Mas ela frequentemente não é o primeiro sinal — e em cerca de um quarto dos pacientes ela nem chega a ser proeminente. Reconhecer os sinais que vêm antes é parte do que a avaliação de Parkinson e distúrbios do movimento procura.

Quando se reconstrói a história com calma, quase sempre aparece um conjunto de mudanças que antecederam o tremor em meses ou anos. Elas são discretas, individualmente banais, e quase sempre atribuídas a outra coisa: idade, estresse, cansaço, humor.

Este guia existe para dar nome a esse conjunto. Não para produzir alarme — a maioria das pessoas que reconhece um ou dois destes itens não tem Parkinson — mas porque reconhecer o padrão cedo muda o momento do diagnóstico e, com ele, a qualidade da condução.

Os sinais motores iniciais

Bradicinesia — a lentidão. É o sinal cardinal do parkinsonismo. Não é apenas “fazer mais devagar”: é a redução progressiva da amplitude do movimento quando ele é repetido. Abotoar a camisa demora mais. Cortar a comida ficou trabalhoso. Escovar os dentes com escova elétrica ficou mais fácil do que com a manual. A pessoa descreve como “estou mais devagar”, e a família confirma.

Micrografia — a letra que encolheu. A escrita fica menor e mais apertada, e frequentemente diminui de tamanho ao longo da própria linha. É um dos sinais mais fáceis de verificar objetivamente: compare uma assinatura de dois anos atrás com a de hoje.

Escrita pequena e apertada, característica da micrografia

Redução do balanço de um braço. Ao caminhar, um dos braços balança menos que o outro. Quem nota costuma ser a família, ou alguém que viu um vídeo. É um sinal precoce e bastante específico de assimetria.

Marcha com passos menores. Passos mais curtos, arrastar leve do pé, dificuldade para iniciar o movimento ou para virar. Em fases iniciais é sutil e aparece mais em espaços apertados ou ao mudar de direção.

Hipomimia — a face menos expressiva. A redução da mímica facial faz com que a pessoa pareça séria, distante ou desanimada. É frequentemente confundida com depressão, e não raro é o primeiro comentário que a família faz: “ele parece triste o tempo todo”.

Mudança na voz. Voz mais baixa, mais monótona, com perda de modulação. As pessoas passam a pedir que ele repita, e ele acha que é o ouvido dos outros.

Os sinais que vêm antes do movimento

Esta é a parte que a pesquisa das últimas décadas consolidou: o Parkinson tem uma fase que antecede os sintomas motores, às vezes por muitos anos.

Redução do olfato (hiposmia). Perda parcial ou total da capacidade de sentir cheiros, sem causa nasal. Muitos pacientes só percebem quando alguém pergunta — ou quando notam que a comida perdeu sabor, já que o paladar depende bastante do olfato.

Transtorno comportamental do sono REM. Durante o sono REM, a musculatura normalmente fica paralisada, o que impede que a gente execute os movimentos que sonha. Quando essa paralisia falha, a pessoa chuta, gesticula, fala, grita ou cai da cama. É um dos marcadores precoces mais consistentes das sinucleinopatias. Esse tema é aprofundado na página de Medicina do Sono.

Quarto ao amanhecer, contexto da alteração do sono REM

Constipação persistente. Sem causa dietética ou medicamentosa identificável, pode preceder os sintomas motores em anos.

Alterações de humor. Depressão e ansiedade de início tardio, sem gatilho evidente, são frequentes na fase inicial e às vezes são o motivo da primeira consulta médica — com o quadro motor aparecendo depois.

O que esse conjunto NÃO significa

É preciso dizer isso com a mesma ênfase.

Cada um desses sinais, isoladamente, tem dezenas de causas mais comuns que o Parkinson. Constipação é banal. Perda de olfato após uma infecção viral é frequente. Lentidão pode ser hipotireoidismo, depressão, efeito de medicação, anemia ou simplesmente uma noite mal dormida. Voz mais baixa pode ser alteração de cordas vocais.

O que levanta a suspeita é a combinação — dois ou três sinais coexistindo, especialmente com assimetria — e a evolução: a mudança que progride ao longo de meses, em vez de oscilar.

E vale repetir: nem todo tremor é Parkinson. O tremor essencial é mais comum, e a distinção entre os dois é o tema do guia sobre tremor essencial ou Parkinson.

Por que a avaliação precoce ajuda

Não existe, hoje, tratamento que interrompa a progressão da doença de Parkinson. Isso levanta uma pergunta legítima: para que diagnosticar cedo?

Três razões práticas.

Tratar o que responde. Os sintomas motores respondem bem à medicação, e ficar anos com lentidão e rigidez não tratadas custa função, autonomia e humor sem necessidade.

Iniciar atividade física cedo. Exercício regular é a medida com evidência mais consistente para preservar marcha, equilíbrio e independência. Quanto antes ele entra na rotina, melhor.

Excluir o que não é Parkinson. Uma parte relevante dos casos com apresentação parkinsoniana tem outra causa — parkinsonismo medicamentoso, hidrocefalia de pressão normal, parkinsonismo vascular, distúrbio da tireoide. Várias dessas são reversíveis, e todas se beneficiam de ser identificadas cedo.

Se você reconheceu dois ou mais dos sinais descritos aqui, principalmente com assimetria, vale uma avaliação. A página de Parkinson e Distúrbios do Movimento descreve como ela é conduzida.

Aviso: Conteúdo de caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica presencial nem estabelece relação médico-paciente. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU). Dr. Lucas Michielon — CRM-SP 175533 · RQE 87441.

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Perguntas frequentes

Dá para ter Parkinson sem tremor?

Dá. Uma parcela relevante dos pacientes abre o quadro com lentidão de movimento e rigidez como sintomas dominantes, sem tremor evidente. Esses casos costumam demorar mais para serem diagnosticados justamente porque a expectativa popular associa Parkinson a tremor, e a lentidão inicial é facilmente atribuída à idade ou ao cansaço.

Perder o olfato indica Parkinson?

Isoladamente, não. Redução do olfato tem causas muito mais comuns — rinite, sinusite, infecções virais, envelhecimento. O que chama atenção é a perda de olfato sem causa nasal identificável, especialmente quando somada a outros sinais como lentidão, mudança na letra ou agitação durante os sonhos.

Mexer-se durante os sonhos tem relação com Parkinson?

Tem, e é um dos marcadores precoces mais estudados. Agir os sonhos — chutar, gesticular, falar, cair da cama durante o sono — caracteriza o transtorno comportamental do sono REM. Em adultos mais velhos, ele se associa a um risco aumentado de desenvolver, anos depois, doenças do grupo das sinucleinopatias, que inclui o Parkinson. Isso não é uma sentença, mas justifica acompanhamento.

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