O que a avaliação de enxaqueca e dor investiga
Nem toda dor de cabeça é enxaqueca — e o nome certo muda o tratamento inteiro. A avaliação identifica o tipo, investiga sinais de alerta e monta um plano que separa o tratamento da crise do tratamento preventivo. Entra aqui também a dor crônica: aquela dor baixa e constante, a pedra no sapato, que mina a qualidade de vida mais do que uma dor forte e pontual justamente porque a pessoa se acostuma com ela.
Os tipos de dor de cabeça que mais chegam ao consultório
O primeiro trabalho da consulta é dar nome à dor, porque o nome determina o tratamento. Os quadros mais frequentes:
Enxaqueca. Dor em geral de um lado, pulsátil, de intensidade moderada a forte, que piora com esforço e vem acompanhada de náusea, sensibilidade à luz e ao som. Pode ter aura — alteração visual ou sensitiva que antecede a dor. Existe em forma episódica e crônica, e a transição de uma para a outra é o que o tratamento preventivo tenta evitar.
Cefaleia tensional. Dor em aperto, dos dois lados, de intensidade leve a moderada, sem náusea e sem piora com esforço. É a mais comum na população geral e a mais subvalorizada, porque raramente incapacita — mas cobra o seu preço em dias ruins acumulados.
Cefaleia em salvas. Dor extremamente intensa, ao redor de um olho, em crises curtas que se repetem em períodos concentrados, com lacrimejamento, congestão nasal e agitação. É rara, muito característica e frequentemente confundida com sinusite por anos.
Cefaleia por uso excessivo de analgésicos. Não é um tipo primário: é o que acontece quando a medicação de resgate é usada com frequência alta. Vira um ciclo em que a dor sustenta o remédio e o remédio sustenta a dor.
Cefaleias secundárias. Dor causada por outra condição — vascular, infecciosa, pressórica, estrutural. São a minoria, mas são a razão pela qual os sinais de alerta são checados sempre.
O que muda quando o diagnóstico é preciso
| Quadro | O que resolve a crise | O que reduz a frequência |
|---|---|---|
| Enxaqueca episódica | Analgésico específico, com dose e momento certos | Preventivo oral ou anti-CGRP conforme o perfil |
| Enxaqueca crônica | Resgate com limite rígido de dias por mês | Preventivo obrigatório, associado a manejo de gatilhos |
| Cefaleia tensional | Analgésico simples, uso pontual | Sono, postura, manejo de estresse, atividade física |
| Cefaleia em salvas | Tratamento abortivo específico do quadro | Preventivo iniciado já no começo do período de crises |
| Uso excessivo de analgésico | Retirada estruturada da medicação implicada | Preventivo instalado em paralelo à retirada |
A coluna da direita é a que costuma estar vazia no histórico de quem chega aqui. É comum encontrar pessoas com dez anos de enxaqueca que nunca fizeram tratamento preventivo — só acumularam receitas de resgate.
Alodinia, gatilhos e a fisiologia que explica o resto
Dois conceitos ajudam a entender por que a dor muda de comportamento ao longo dos anos.
O primeiro é a alodinia cutânea: a fase da crise em que o simples toque no couro cabeludo, o rabo de cavalo ou a armação do óculos incomodam. É um sinal de que o sistema de dor está sensibilizado, e é também um marcador prático — quando a alodinia já se instalou, o analgésico funciona muito menos. Daí a orientação de tratar a crise cedo, e não “esperar para ver se passa”.
O segundo é a diferença entre gatilho e causa. Queijo, vinho, jejum, privação de sono, ciclo menstrual e mudança de rotina são gatilhos: eles disparam uma crise em quem já tem a predisposição. Eliminar gatilhos ajuda, mas não trata a doença de base — e listas restritivas longas demais costumam gerar mais ansiedade do que benefício. Por isso o diário é mais útil que a dieta de exclusão: ele mostra os seus gatilhos, não os do manual.
A dor crônica: a pedra no sapato
Existe um segundo território nesta página, menos visível e igualmente importante. É a dor baixa e constante — nas costas, nos membros, difusa — que não incapacita num dia específico, mas corrói a qualidade de vida ao longo de meses. Uma dor forte e pontual manda a pessoa ao pronto-socorro. Uma dor média e permanente ensina a pessoa a conviver, e é assim que ela se perpetua.
Na avaliação neurológica dessa dor, interessa separar o componente nociceptivo (tecido lesionado sinalizando) do componente neuropático (o próprio nervo gerando o sinal), porque eles respondem a classes diferentes de medicação. Analgésico comum tem pouco efeito em dor neuropática, e persistir nele por anos é um padrão frequente.
A avaliação também olha o que sustenta a dor por fora: sono ruim, humor, sedentarismo, medicação que perdeu efeito. Tratar só o sintoma, sem mexer nesses fatores, é enxugar gelo.
Quando procurar avaliação
- Dor de cabeça em mais de quatro dias por mês, ou que já obriga a faltar compromissos.
- Uso de analgésico em mais de dez dias por mês.
- Mudança de padrão numa dor que você já conhecia há anos.
- Dor acompanhada de alteração visual, fraqueza, alteração de fala ou confusão.
- Dor que acorda você à noite ou piora ao deitar.
- Dor crônica que já dura mais de três meses sem explicação ou sem melhora.
Dor de cabeça de início súbito e explosivo, a chamada dor em trovoada, é emergência: procure atendimento imediato ou ligue 192.