O que a nossa pesquisa em Arquivos de Neuro-Psiquiatria mostrou sobre pacientes com doenças neuromusculares
Coautoria em artigo publicado na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria sobre o impacto da pandemia em pacientes com doenças neuromusculares hereditárias, e o que isso mudou no consultório.
Em 2022, a revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria publicou um artigo do qual sou coautor, sobre o impacto da pandemia de COVID-19 em pacientes com doenças neuromusculares hereditárias. O tema parecia, à época, um recorte muito específico de um momento muito específico. Quatro anos depois, o que ficou dele é uma lição que atravessa a pandemia e vale para qualquer paciente com doença crônica: o acompanhamento contínuo não é um detalhe administrativo do tratamento — é parte dele.
Escrevo este texto porque essa conclusão mudou coisas concretas na forma como conduzo o consultório, e acho que ela interessa a quem convive com uma doença neuromuscular ou cuida de alguém que convive.
O que o estudo investigou
Pacientes com doenças neuromusculares hereditárias — distrofias musculares, miopatias congênitas, neuropatias hereditárias — formam um grupo que depende de seguimento regular por várias razões simultâneas.
Eles precisam de monitoramento respiratório, porque a musculatura envolvida na respiração pode ser afetada de forma progressiva e silenciosa. Precisam de acompanhamento cardiológico, porque várias dessas condições têm envolvimento cardíaco que não dá sintoma até dar. Precisam de fisioterapia continuada, porque a perda de amplitude e a retração muscular avançam quando a terapia para. E precisam de reavaliação neurológica periódica, porque o ajuste da conduta depende de comparar o hoje com o registrado seis meses atrás.
Durante o período mais restritivo da pandemia, boa parte dessa estrutura foi interrompida. Ambulatórios de especialidade fecharam ou reduziram drasticamente o atendimento. Sessões de fisioterapia foram suspensas. Exames eletivos foram adiados. Pacientes — compreensivelmente — evitaram ir a hospitais.
O estudo se propôs a olhar o que aconteceu com esse grupo nesse intervalo.

O achado que mais me marcou
A interrupção do seguimento teve custo. Não um custo abstrato, de indicador populacional — um custo que aparecia na consulta seguinte, quando ela finalmente acontecia.
Pacientes retornavam com perda funcional que, pelo curso natural esperado da sua condição, não deveria ter acontecido naquele intervalo. Retrações articulares que a fisioterapia vinha segurando. Quadros respiratórios que passaram meses sem a reavaliação que teria ajustado o suporte a tempo. Ajustes de medicação que não foram feitos porque ninguém reavaliou.
Vale ser preciso sobre o que isso significa e o que não significa. Doenças neuromusculares hereditárias são, em sua maioria, progressivas — parte dessa perda aconteceria de qualquer forma. O que o recorte da pandemia permitiu enxergar foi a fração da perda que era evitável: aquela que o acompanhamento regular estava contendo sem que ninguém percebesse, justamente porque o acompanhamento estava funcionando.
É um efeito difícil de ver em condições normais. Quando o seguimento funciona, o que ele evita é invisível. Foi preciso ele parar para que o tamanho do seu efeito ficasse mensurável.
O que isso mudou na minha prática
Três coisas, de forma bastante concreta.
Retorno com data, não com “quando precisar”. Em doença neuromuscular, “volte se piorar” é uma instrução ruim, porque boa parte da piora relevante é gradual demais para ser percebida pelo próprio paciente. O intervalo de retorno passa a ser combinado com data e com motivo explícito: o que exatamente vamos reavaliar naquele encontro.
A telemedicina como rede de segurança, não como substituto. Parte do que se faz no seguimento — revisar exames, ajustar medicação, orientar a família, checar adesão à fisioterapia — funciona perfeitamente por vídeo. O exame neurológico não. O arranjo que passei a recomendar para pacientes que moram longe é híbrido: avaliações presenciais em intervalos definidos, com retornos online entre elas. É sobre isso que a página de telemedicina em neurologia trata em detalhe.
A família dentro do plano. Quem convive percebe a mudança funcional antes do paciente e antes do médico: a dificuldade nova para levantar do sofá, o engasgo que passou a acontecer com líquidos, o cansaço que apareceu cedo demais no dia. Quando essa observação é orientada — quando a família sabe o que observar e quando avisar —, ela funciona como monitoramento contínuo entre as consultas.

O que observar entre as consultas
Se você ou alguém da sua família tem uma doença neuromuscular, estes são os sinais que valem um contato antes da data marcada do retorno:
| O que observar | Por que importa |
|---|---|
| Falta de ar ao deitar, ou sono não reparador | Pode indicar envolvimento respiratório em progressão |
| Engasgos novos, sobretudo com líquidos | Alteração de deglutição, com risco pulmonar |
| Perda funcional nova em tarefa antes possível | Marca mudança de patamar, não flutuação |
| Cansaço desproporcional ao esforço | Pode ser respiratório, cardíaco ou metabólico |
| Palpitação, desmaio ou tontura ao esforço | Levanta a hipótese de envolvimento cardíaco |
| Interrupção da fisioterapia por mais de um mês | Perda de amplitude se instala rápido |
Nenhum desses itens significa emergência automática. Todos significam: avise, não espere a data.
A lição que fica
A pandemia foi um experimento natural cruel, e ninguém deveria precisar dele para aprender algo. Mas ele deixou uma evidência clara sobre um tipo de cuidado que costuma ser desvalorizado justamente por ser discreto.
Em doenças crônicas e progressivas, o acompanhamento regular não produz resultados espetaculares. Ele produz uma curva de perda mais lenta do que seria — e isso não vira manchete. Mas é exatamente esse o ganho disponível em boa parte da neurologia, e é um ganho real. Às vezes o resultado do bom tratamento é piorar mais devagar. Dito assim, parece pouco. Vivido ao longo de dez anos, não é.
Se você tem uma doença neuromuscular e o seu seguimento foi interrompido em algum momento — pela pandemia ou por qualquer outro motivo —, retomar vale a pena mesmo que você se sinta estável. A estabilidade percebida e a estabilidade documentada nem sempre coincidem, e essa diferença é exatamente o que a reavaliação existe para medir.
Quer retomar o acompanhamento neuromuscular? — Fale com o consultório
Aviso: Conteúdo de caráter informativo e educativo. Não substitui a consulta médica presencial nem estabelece relação médico-paciente. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU). Dr. Lucas Michielon — CRM-SP 175533 · RQE 87441.